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Sexta-Feira Santa 2022 | Procissão do Senhor Morto

Pregação das Sete Palavras de Jesus

Diácono Diego

Desde a Ação Litúrgica da Paixão do Senhor, que nós vivemos hoje à tarde, estamos envolvidos num forte silêncio. Silêncio não de quem não tem assunto, mas um silêncio desconcertante, quase constrangedor, de quem olha para Jesus Cristo e vê um homem morto, injustamente e de forma violenta. Olhar para Jesus crucificado deve nos fazer pensar na fraqueza humana, na falência do ser humano, na nossa incapacidade de amar, de acolher a vida. Por isso, que esse silêncio é tão forte e desconcertante.

Para todos nós que seguimos Jesus Cristo, o silêncio diante da cruz deve ser sempre um convite à lucidez, à clareza, ao discernimento em relação àquilo que acreditamos. Porque muitas vezes nós dizemos que seguimos Jesus, mas agimos exatamente ao contrário da forma como ele agiu. Professamos a fé em Jesus, mas tratamos as pessoas do nosso convívio e da sociedade exatamente da forma oposta como Jesus nos ensinou a tratar.

As Sete Palavras de Jesus na cruz são uma grande síntese da sua vida, do seu ensinamento, do seu projeto de salvação. Se quisermos dizer algo sobre essas palavras precisamos olhar para a vida de Jesus. Porque aquilo que Jesus fez e falou na hora derradeira da sua morte é na realidade o que ele fez e falou durante todo o tempo da sua vida.

Portanto, se quisermos dizer algo sobre a frase: “Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem” (Lc 23, 34) precisamos antes entender que em toda sua vida Jesus ensinou o valor do perdão. E nos mostrou que não existe outro caminho para a verdadeira fraternidade. Jesus ensinou que a medida do perdão é o amor. E nos pediu para amarmos até mesmo os nossos inimigos (Lc 5,44). Amor aqui não é simpatia, não é gostar, não é querer bem, mas é retribuir a uma ofensa não com outra ofensa, mas com amor, que inclusive pode ter o nome de perdão. Nós temos sido capazes de perdoar até mesmo àquelas pessoas que nos são menos queridas?

Se quisermos dizer algo sobre a frase: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43) precisamos entender que Jesus em todos os momentos da sua vida procurou ser sinal de salvação e consolação para as pessoas. Ele sempre confortou e consolou como fez com as irmãs de Lázaro (Jo 11,23), com a mulher adúltera (Jo 8,11), com a viúva de Naim (Lc 7,13), com as mulheres de Jerusalém (Mt 23,28). Jesus sempre se preocupou mais com os outros do que com ele mesmo. Como nós confortamos alguém que está enlutado? Como tratamos as pessoas marginalizadas da nossa sociedade? Como acolhemos aqueles que passam por algum sofrimento? Nós agimos como Jesus agiria?

Quando quisermos dizer algo sobre a frase: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,27) será necessário compreender que para Jesus a ideia de família sempre foi muito mais do que a consanguinidade (Mt 12,48). Por isso a mãe de Jesus é também mãe de toda a comunidade de seguidores que nasce aos pés da cruz. Somos família porque buscamos fazer a vontade do Nosso Pai- que é um só, porque nos perdoamos mutuamente, porque comungamos do mesmo corpo e sangue de Jesus, porque temos fome e sede de justiça, porque temos a mesma Mãe- Maria Santíssima, porque respeitamos a dignidade de todos os seres humano…

Para dizermos algo sobre a frase: “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste” (Mt 27,46) precisamos compreender que Jesus sempre ensinou que nossa vida toda é relação com Deus. E no momento da sua morte, Jesus manifesta que também na hora da dor, do sofrimento e do abandono somos chamados a experimentar Deus. O sofrimento do ser humano nunca foi e nunca será vontade de Deus, mas nos momentos de sofrimento também podemos buscar a Deus.

Se quisermos dizer algo sobre a frase: “Tenho sede” (Jo 19,28) precisamos entender que a sede para Jesus não é somente sede de água, mas também sede de sentido, em última análise, sede de Deus e do Deus vivo (Sl 42,2). A vida de Jesus foi um constante despertar a sede das pessoas, dar nome às sedes, como Ele fez com a samaritana (Jo 4,7). Nossa sede maior é a sede de sentido, de amor, de comunhão plena com Deus e com cada ser humano. O projeto de vida e felicidade que Jesus viveu e anunciou saciam nossa sede.

Quando quisermos dizer algo sobre a frase: “Tudo está consumado” (Jo 19,30) será necessário compreender que cada palavra e cada gesto de Jesus foram plenos de redenção. Jesus completou com a sua vida, morte e ressurreição todo o plano da salvação. Jesus morreu repleto da confiança de quem cumpriu sua missão. E sua morte rompeu todas as divisões que nos separam, nos marginalizam e nos impedem de fazer comunhão com todos os seres humanos. A nós cabe acolher e viver essa salvação já consumada.

Por fim, se quisermos dizer algo sobre a frase: “Pai em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46) será necessário recordar que para Jesus, o Pai é o princípio e fim de todas as coisas. Por isso, não tendo mais nada fisicamente para entregar, entrega o próprio espírito com a mesma confiança de uma criança que se atira nos braços do seu pai. Essa é a confiança em Deus que devemos copiar em nossa vida, também nos momentos de sofrimento e dor. Nós temos confiado inteiramente em Deus?

Meus irmãos e minhas irmãs, deixemos que o silêncio que nos envolve denuncie tudo o que em nós há de antievangélico, tudo o que em nós é contrário ao que Jesus ensinou. A cruz nos ensina perdão, acolhida, salvação, amor, relação, sentido, confiança…tudo que seja o oposto dessas coisas não vem de Deus. Que o Senhor Jesus, nossa esperança e salvação, nos ajude a sermos mais fiéis à sua cruz. Assim seja!

Dc. Diego

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