Quarta-feira de Cinzas…

E mais uma vez, celebramos a Quarta-feira de Cinzas, iniciando o Tempo Quaresmal, tempo no qual somos chamados à conversão para nos prepararmos verdadeiramente para viver os Mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

A tradição da imposição das cinzas surgiu no início do século XI, como símbolo do início do caminho penitencial próprio da Quaresma. Não como um mero gesto exterior, mas como reconhecimento da fragilidade e da mortalidade humana que precisa ser redimida pela misericórdia de Deus. Um gesto de humildade do coração penitente que cada um de nós, batizados, somos chamados a assumir ao longo da caminhada quaresmal, para que a conversão alcance o âmago do nosso ser. (Cf. Diretório sobre a piedade popular e a liturgia, 125)

As cinzas simbolizam morte, consumação e mesmo destruição. E neste ano de 2022, creio que as cinzas da quarta-feira que inicia a Quaresma, mais do que em qualquer outro momento deste segundo milênio, tem um significado tão profundo e tão marcante. Estamos presenciando a guerra transformar em cinzas os sonhos e esperanças de um povo; estamos vendo a prepotência transformar em cinzas os esforços da maioria das nações na busca da paz; estamos testemunhando os delírios de poder absoluto transformar em cinzas a vida de pessoas inocentes.

Talvez muitos digam: “Mas o que nós podemos fazer??? Não fomos nós que provocamos isso… não depende de nós…”

Será??? A guerra não se faz sozinha; a prepotência não é inerente ao homem; os delírios de grandeza não são defeitos intrínsecos do ser humano. Tudo isso é fruto da falta de Deus. E essa falta começa em casa, na família humana.

Quando na família não colocamos Deus como o Senhor das nossas vidas e fechamos os olhos às pequenas guerras travadas entre os cônjuges, entre pais e filhos, entre irmãos, estamos plantando a semente de guerras que podem dilacerar o mundo.

Quando na família não colocamos Deus como nosso Pai e permitimos que a prepotência seja incentivada pela falta de diálogo e de amor fraterno, estamos alimentando o monstro do egoísmo e da presunção que fazem as pessoas acreditar que são maiores e melhores que as outras. Quando na família não colocamos Deus como o Todo-poderoso, que na sua infinita sabedoria se fez um simples ser humano encarnando-se no seio de uma mulher, por puro amor à humanidade, estamos cultivando o destruidor vírus da sede de poder, capaz de passar por cima de tudo e de todos, apenas para garantir ao homem o seu poderio.

Diante de tudo isso, não podemos dizer que o inferno da guerra que o mundo enfrenta nada tem a ver conosco, pois tem tudo a ver. Se o mundo ainda não é o Reino de Deus, é porque Deus não reina em nossas famílias, em nossas casas, em nossas Igrejas. E isso é sim responsabilidade de cada um de nós, cristãos.

Na mensagem para a Quaresma deste ano, o Papa Francisco faz sua reflexão a partir de uma exortação de Paulo aos Gálatas: “Não nos cansemos de fazer o bem; porque, a seu tempo colheremos, se não tivermos esmorecido. Portanto, enquanto temos tempo (kairós), pratiquemos o bem para com todos” (Gal 6,9-10a). Assim, nosso querido Papa nos convoca à conversão como fruto da perseverança na prática do bem, do amor, da justiça e da solidariedade, verdadeiros antídotos para o mal que está desumanizando as pessoas.

Que as cinzas desta “Quarta-feira de Cinzas” nos recordem que a conversão começa em “casa”, no coração de cada um de nós, onde Deus deve ser o Senhor absoluto.

Maria Aparecida Cicco

Clique no link abaixo para ler a mensagem do Papa Francisco sobre a Quaresma 2022

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